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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Debate: a emergência no setor cultural em Santa Catarina e no Brasil!

Nesta quinta-feira, 20 de agosto, a partir das 18h00min, o coletivo do mandato do deputado Padre Pedro (PT/SC) coloca em pauta o contexto do setor de cultura em SC e no País, com destaque para a Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural, o desafio da Participação Social e sua regulamentação, o cadastro e chamamento público para os recursos, além de políticas de fomento posteriores à pandemia.

O ator e ativista nacional da Cultura, Sérgio Mamberti, já confirmou presença, junto de Pedro Vasconcellos e Marcelo Seixas. O coletivo do mandato espera todos e todas neste encontro de luta pela arte e pela cultura. Para assistir clique no link a seguir: www.facebook.com.br/padrepedrobaldissera

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Roger lança projeto para publicar 50 livros de autores negros e indígenas.

 Por Demétrio Vecchioli*

Uma das principais vozes do movimento negro no futebol brasileiro, o técnico do Bahia, Roger Machado, quer promover a negritude e a luta antirracista para muito além do esporte. O treinador é o mecenas de um projeto que pretende lançar 50 livros de autores negros e indígenas nos próximos cinco anos e, quem sabe, se tornar uma editora no futuro. Já em 2020 serão publicados 10 livros da coleção Diálogos da Diáspora que, graças ao financiamento do Projeto Canela Preta, de Roger, chegarão ao mercado com preço acessível para a parcela mais carente da população, formada em sua maioria por negros.

"Quando minhas filhas eram pequenas, eu procurava livros para elas, de literatura infanto-juvenil, com autores e personagens negros, e tinha dificuldade em encontrar. Essa inquietação cresceu quando li o livro da Chimamanda Adichie que fala do perigo da história única, como é prejudicial o país quando a história é contata só por um lado, o lado que detém os meios da produção do conhecimento", conta Roger.

Essa inquietação também é presente na academia. "Menos 10% dos livros publicados no Brasil são de autores não brancos e isso é um reflexo da exclusão no espaço acadêmico. Com a chegada de mais negros à universidade, fruto das cotas sociorraciais, a gente está tendo maior produção sobre racismo, lutas contra desigualdade social, e a gente entendeu que era importante ter um fomento de produção editorial desse espaço", conta Tadeu de Paula, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos coordenadores do Grupo de Pesquisa Egbé.

Os dois se encontram como pais com filhos numa mesma escola gaúcha. Ele disse: 'Que tal a gente pensar conjuntamente?' E eu disse que era isso que eu tava procurando fazer. Eu não conseguia achar o fio por onde começar, mas é isso que eu quero. E daí surgiu a ideia de nos próximos cinco anos eu fazer o financiamento de 10 publicações por ano de autores não brancos.".

Roger marcou um gol de placa - foto: Dario Guimaraes Neto/UOL

A falta de espaço para autores negros no mercado editorial é mais um exemplo do racismo estrutural tão presente na sociedade brasileira. Para ter um livro publicado, um autor iniciante normalmente precisa colocar dinheiro do bolso e, mesmo assim, quando chega às prateleiras das livrarias, o livro tem um valor expressivo. Pelo projeto do Selo Diálogos da Diáspora, os custos de produção serão cobertos pelo financiamento do treinador. Um exemplar de 200 páginas que seria vendido por R$ 40 vai custar R$ 15.

"O financiamento produz um livro final acessível. Sem o financiamento a gente nunca ia conseguir lançar 10 livros. Ia conseguir lançar dois no ano. Quando ele paga a editora, a gente cria a coleção, ela acelera e sai esse ano", explica De Paula, que, pelo lado acadêmico, coordena o projeto com professor José Damico, também da Federal do Rio Grande do Sul.

Os livros serão lançados pela Hucitec Editora, especializada em humanismo, ciência e tecnologia. O conselho editorial fará a curadoria para escolher, todo ano, ao longo de cinco anos, 10 obras preferencialmente de escritores negros e indígenas, nas mais diversas áreas acadêmicas: Antropologia, Sociologia, Psicologia, Urbanismo, Direito, Filosofia, Letras, Pedagogia, Comunicação, Arte, etc. A coleção também vai incluir literatura de ficção, poesia e saberes tradicionais, que são os conhecimentos que são produzidos fora da academia. Aí se encaixam mestres griôs, religiosos e das artes.

Os trabalhos pré-selecionados serão avaliados por um ou mais componentes do Conselho Editorial. A partir do banco de obras pré-selecionadas, os coordenadores (um tripé formado pelo Canela Preta, a editora e o Grupo de Pesquisa Egbé) selecionarão os 10 livros de cada coleção, com base em quatro critérios: diversidade de temas, de áreas de conhecimento, de gênero de autores/autoras e de regiões do Brasil.

O plano é que, a partir do ano que vem, seja aberto um edital para o recebimento de originais, que, por enquanto, devem ser enviados diretamente à Hucitec Editora. Roger, que já tem desenhado o projeto de um instituto, o Tiaduca (homenagem à sua mãe de criação, que era conhecia assim, e referência à educação), tem planos para que a coleção se transforme, no futuro, em uma editora voltada à publicação de autores negros.

Publicado originalmente no Blog Olhar Olímpico da UOL – 18 de agosto 2020

*Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Em setembro acontece a Live Solidária do Cecap e Karatê-dô...

O versátil músico Zé Fernando, é o convidado, a apresentação será de Rafael Caetano, para a primeira LIVE SOLIDÁRIA DO CECAP E KARATÊ-DÔ! Os recursos arrecadados serão investidos na implantação do Cecap (Centro de Educação, Cultura e Arte Popular) e no Projeto Cidadão do Futuro de Karatê-dô. Veja na arte abaixo como fazer doações para o Cecap e Karatê-dô:

AGENDE AÍ:

Sexta-feira 18 de setembro, às 19h30min, pela fanpage da Apafec e do Karatê-dô você pode acompanhar o melhor do POP ROCK NACIONAL E MPB, com Zé Fernando...

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Uma carta para Paulo Freire

Por Luana Tolentino*

‘Meu Mestre querido, as coisas não estão fáceis. À nossa volta, muito horror e destruição. Ainda assim, mantenho a esperança’...

Paulo Freire patrono da educação no Brasil

Sinto uma alegria imensa em poder lhe escrever. Vinte e três anos se passaram desde que o senhor nos deixou. Durante o tempo em que frequentei um centro espírita kardecista, aprendi que, ao deixar o plano terreno, cada um de nós vai para um lugar diferente. Caso isso seja verdade, imagino que o senhor tenha como vizinha a Carolina Maria de Jesus.

Digo isso pois, assim como o senhor, ela sempre defendeu os mais pobres. Além disso, no livro Quarto de despejo, Carolina deu contribuições significativas para pensarmos na urgência de uma educação emancipatória. Antes mesmo de o senhor publicar A importância do ato de ler, ela, que pôde frequentar a escola por apenas dois anos, escreveu: “Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem”.

Pensando nisso, no ano passado, propus um trabalho em que meus alunos e alunas do curso de Pedagogia tiveram que estabelecer um diálogo entre o seu livro e o diário da Carolina. Tenho certeza de que o senhor ficaria muito feliz ao ler os artigos que eles produziram.

Como deve saber, vivemos tempos muito difíceis. Estamos cansados. Não conseguimos respirar. Como bem disse um sertanejo de Quixeramobim, município do Ceará: “a peste chegou”. Diariamente, vemos ofensas a sua pessoa e ao seu legado. O que não é nenhuma novidade, uma vez que as perseguições ocorridas logo após o golpe de 1964 o obrigaram a partir para o exílio. Uma coisa é certa: os que o agridem jamais leram um só livro do senhor.

Há alguns dias, reli Pedagogia do oprimido. Confesso que foi uma leitura muito angustiante. Embora tenhamos avançado nas duas últimas décadas, a verdade é que as bases que sedimentam o nosso país continuam as mesmas. Assim como nos idos de 1960, os que detêm o poder falam em “ameaça comunista”, dizem defender os “valores da família”. A todo momento, apropriam-se do nome de Deus. Dessa forma, criam artifícios para atender aos interesses das “elites dominadoras”, ao passo que cresce o número de “esfarrapados do mundo”: sem emprego, sem direitos e sem perspectivas de futuro. São estes as maiores vítimas da Covid-19, que já matou mais de 100 mil pessoas.

Durante a leitura, senti raiva dos “opressores falsamente generosos”, que diante dos “demitidos da vida” se arvoram a fazer “caridade” somente para alimentar o próprio ego. Estes, em momento algum, refletem que os famintos, os que estão desabrigados são resultado de uma ordem injusta, que desumaniza, entorpece e cria abismos. Recusam-se a entender que a massa de miseráveis somente deixará de existir com educação de qualidade, criação de políticas públicas de inclusão sociorracial e distribuição de renda.

Bom seria se pudessem aprender com o senhor: “A grande generosidade está em lutar para que, cada vez mais, estas mãos, sejam de homens ou de povos, se estendam menos, em gestos de súplica. Súplicas de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo”.

Mas a leitura não me trouxe apenas raiva e angústia. Terminei Pedagogia do Oprimido com a certeza de que por meio da educação podemos ampliar o direito à cidadania aos que ainda não podem exercê-la. Senti vontade de ir correndo para a sala de aula ensinar, partilhar tudo que aprendi. Como é bom tê-lo como mestre. O livro me fez rever a minha caminhada como professora da Educação Básica em bairros pobres da região metropolitana de Belo Horizonte. Bairros que lembram muito a periferia do seu Recife.

Sempre busquei fazer com que os meninos e meninas com quem convivi diariamente compreendessem que as condições precárias de existência, vivenciadas por eles e por seus familiares, são resultantes das injustiças e dos desmandos que marcam o Brasil desde o nascedouro. Nossas aulas de História eram permeadas pelo o que o senhor chamou de dialogicidade. Nunca vi os estudantes como “vasilhas” nas quais eu devia depositar conteúdos. Muito pelo contrário: por meio do diálogo, ensinava o que sei e aprendia com as experiências, com as visões de mundo que meus alunos e alunas carregavam. É bem verdade que por vezes falhei, mas garanto ao senhor que busquei implementar a pedagogia do oprimido. Uma “pedagogia humanista e libertadora”.

Além de exercer a docência, tenho tido a oportunidade de viajar pelo país e conversar com professores dos ensinos Fundamental e Médio. Nessas andanças, levo o seu pensamento e tento fazer com que meus colegas de jornada percebam a função social da educação. Tento mostrar que a escola pode e deve ser o lugar do encanto, o lugar em que professores e estudantes se sintam realizados.

Insisto em dizer que precisamos assumir a condição de pensadores da Educação, como um dos caminhos para ressignificar a nossa profissão e exigir o respeito que ela merece. Insisto ainda em afirmar que não podemos aceitar o lugar do silêncio. Não podemos aceitar que nos seja imposto o papel de meros transmissores dos conteúdos presentes nos livros didáticos. No meu entendimento, ao agirmos assim, construímos alternativas para enfrentar as omissões em relação à educação e ao fazer docente.

Também nessas andanças, tenho presenciado iniciativas que reforçam minha certeza de que outra educação é possível. Em dezembro do ano passado, participei do I Seminário de Docência de Natal, evento promovido pela Secretaria Municipal de Educação potiguar. Foi a primeira vez que estive em um encontro protagonizado por professores e professoras da Educação Básica. Foi uma das coisas mais bonitas que vi na vida. Mais bonito ainda foi ter o senhor como o grande homenageado. Quando a professora Ednice Peixoto, organizadora do evento, mencionou o seu nome no microfone, o auditório quase veio abaixo. O senhor foi aplaudido por longos minutos. Ainda que uns e outros desejem o contrário, o senhor é e sempre será o nosso Patrono da Educação.

Meu Mestre querido, as coisas não estão fáceis. À nossa volta, muito horror e destruição. Ainda assim, mantenho a esperança. Esperança do verbo esperançar. Conforme o senhor afirmou: “Minha esperança é necessária, mas não suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela, a luta fraqueja. Precisamos da esperança crítica, como o peixe precisa da água despoluída.”

Um abraço grato e terno.

*Luana Tolentino - Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente é professora universitária.

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Futebol: Que parem os campeonatos

Por Elaine Tavares*

Eu sempre amei o futebol. Desde menina vibrando a partir das cadeiras vermelhas do estádio do Internacional de São Borja. O pai era radialista, então eu tinha aquele espaço de privilégio. Depois, quando os times se juntaram no Esporte Clube São Borja, lá segui eu o novo time, no novo estádio. A paixão mesmo era pelo que acontecia em campo, aquele bailado, os dribles, o gol.

Muitos anos depois tive a alegria de trabalhar como setorista no Figueirense, em Florianópolis, e foi daí que nasceu meu amor pelo alvinegro. Ainda assim era o futebol o meu encanto. Mas, na prática do trabalho também fui conhecendo a gurizada, os seres que fazem a festa acontecer. Nos clubes menores tende a não haver grandes estrelas. Todos estão no mesmo nível, sem altos salários e com trabalho duro. Todos os dias, o treinamento pesado. Muita academia, muito suor, muito treino tático, com o corpo sendo levado ao seu limite.  Não é bolinho não.

Foi aí que descobri que aquele bailado, os dribles e o gol não existem sozinhos, eles precisam ter corporalidade, nome, sobrenome. Vai daí que os jogadores acabam sendo o centro de tudo. Sem eles, nada. Eles são esse corpo coletivo que levanta as gentes nos estádios. Eles são parte constitutiva dessa belezura toda.

Imagem de divulgação

Por isso me encho de ódio ao ver os cartolas dos times, as empresas patrocinadoras, e as redes de TV exigindo que os campeonatos recomecem. A cada notícia de mais um jogador infectado, mais meu ódio aumenta. Como é possível tanta maldade? Tanta desimportância pela vida do outro? Em cada treinamento lá se vão oito, nove, 12 garotos para o drama da Covid-19. Que insanidade! E o pior é saber que eles sequer podem dizer não. São trabalhadores. Estão sob o tacão do capital. Ou jogam ou estão fora. Esse é o tom. 

O futebol é um jogo coletivo, de muito toque e de contato. Não há como jogar sem o risco de se contaminar. E não é possível que os amantes do futebol possam querer que isso continue, como se fosse um combate de gladiadores. É preciso proteger os jogadores como a se protegem os demais trabalhadores nessa hora de angústia e incerteza. As torcidas organizadas deveriam fazer protestos, gritar, impedir esse sofrimento generalizado para os jogadores e suas famílias, que acabam se infectando também. Nada justifica o retorno dos campeonatos se não há sequer como ver os jogos presencialmente.

Para os donos dos times, a vida não importa. Se um jogador morrer, outro logo vem. Essa é lógica do capital. Mas, se o dinheiro não entrar nos seus bolsos eles podem repensar.  Nessa hora os que pagam pelo futebol, os torcedores, os sócios dos clubes, têm poder. Há que impedir essa insanidade. Exigir que os jogos sejam suspenso até que haja segurança para os trabalhadores.

Eu mesma não consigo ver nem ouvir a transmissão do jogo. Aperta-me o peito, me dói o coração. Coloco-me na pele daqueles homens que entram em campo, provavelmente assustados, e que precisam ainda vencer. Não, não dá! Que parem os campeonatos. Que se protejam os trabalhadores. Boicote aos times, às Federações, às emissoras de televisão. Aquele que ama mesmo o futebol há ter essa clareza. E os que apenas vêm dinheiro no processo, que se fodam!

*Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores.

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